Startup capixaba transforma CO2 industrial em fertilizante de microalgas
- 18 de mai.
- 3 min de leitura

O Espírito Santo está produzindo tecnologia climática com aplicação direta no campo. A GreenWay Environment & Climate, startup capixaba classificada como climate tech, desenvolveu uma solução que captura dióxido de carbono diretamente de fontes industriais e transforma em fertilizante agrícola de microalgas, tudo dentro de um ciclo que conecta indústria, agricultura e mercado de carbono.
O projeto ganhou força recente com o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Espírito Santo, a FAPES, e chega num momento em que a dependência brasileira de fertilizantes importados voltou a entrar no centro do debate nacional.
A empresa atua em duas frentes complementares. A primeira é a comercialização de ativos ambientais, certificados de energia renovável e créditos de carbono. A segunda, e mais inovadora, é o desenvolvimento de tecnologias de remoção e circularidade de carbono a partir de soluções baseadas na natureza, com destaque para o uso de microalgas.
“Nosso propósito é simplificar a jornada de descarbonização das indústrias, transformando emissão em ativo”, resume Israel Pestana, Co-founder e Diretor de PD&I da GreenWay.
A tecnologia enfrenta dois problemas ao mesmo tempo. O primeiro é a pressão crescente sobre indústrias intensivas em emissões, siderurgia, cimento, energia, agronegócio, mineração, para reduzir e compensar o carbono que lançam na atmosfera, num cenário de regulação crescente tanto no Brasil quanto na Europa. O segundo é a demanda por insumos agrícolas de origem biológica, produzidos localmente e com menor impacto ambiental.
“Nossa tecnologia de microalgas conecta os dois problemas em uma única solução circular: capturamos o CO₂ direto de fontes industriais e transformamos a biomassa resultante em bioinsumo agrícola, produzido no próprio território onde será usado”, explica Pestana.
O contexto em que essa tecnologia surge é estratégico. O Brasil importa entre 85% e 90% dos fertilizantes que consome e a instabilidade no Estreito de Ormuz, passagem crítica para o abastecimento global de insumos agrícolas, escancarou o tamanho dessa vulnerabilidade. Para o produtor capixaba de café, cacau, hortifruti e fruticultura, que sente diretamente a oscilação de preço dos fertilizantes nitrogenados e fosfatados, essa equação é familiar e urgente.
A validação científica da proposta veio pelo caminho mais exigente. A GreenWay foi aprovada em primeiro lugar no edital Fapes/Seama nº 02/2025, voltado a negócios de impacto socioambiental com foco em cobertura florestal, e recebeu investimento de R$ 200 mil do Governo do Estado por meio da FAPES.
Para Pestana, a aprovação teve um peso que vai além do recurso financeiro. “A FAPES tem um crivo técnico rigoroso. Você passa por uma banca que avalia robustez conceitual, viabilidade e impacto. Ser aprovado em primeiro lugar mostrou que nossa tese tem fundamentação técnica que é uma inovação real de bioeconomia”, afirma.
O edital também abriu portas que nenhum aporte financeiro isolado conseguiria abrir. “A partir do momento que fomos aprovados, ficamos sabendo de outros programas e passamos a entrar também. Estivemos no Brazilian Impact Techs in Spain, na Espanha, e agora estamos indo para a Argentina, no BretA. Isso nos trouxe um ecossistema de inovação não apenas nacional, mas internacional e é exatamente esse o nosso foco agora”, conta Pestana.
O recurso da FAPES financia a próxima etapa: validação da tecnologia em ambiente industrial real, com indústrias parceiras já mapeadas, e ampliação dos testes agronômicos para novas culturas. Mas Pestana deixa claro que o fomento público é apenas um dos pilares de uma jornada maior. Para escalar até o nível comercial em que a solução opera de forma replicável dentro de plantas industriais, a GreenWay precisa de dois movimentos complementares: atração de capital privado, em rodadas com fundos de impacto e venture capital com tese em climate tech; e parcerias diretas com indústrias emissoras.
“Quando uma indústria abre as portas para validar nossa solução em ambiente real, ela não está fazendo um favor à GreenWay: está antecipando uma vantagem competitiva diante do CBAM europeu, do mercado regulado brasileiro de carbono e das exigências de cadeias globais de suprimentos”, afirma.
Para o agronegócio capixaba, a conexão com o que a GreenWay desenvolve é direta. Bioinsumos produzidos a partir da captura de CO₂ industrial chegam ao campo como alternativa aos fertilizantes convencionais, importados em larga escala e sujeitos às oscilações do mercado global. Uma tecnologia capixaba que produz bioinsumo no próprio território onde ele será usado encurta a cadeia, reduz o custo logístico e diminui a dependência de insumos externos. É exatamente o tipo de solução que o produtor que acompanha o cenário de fertilizantes em 2026 sabe que o Brasil precisa desenvolver.




Comentários